... existe um sentir que é entre o sentir - nos interstícios da matéria primordial está a linha de mistério e fogo que é a respiração do mundo, e a respiração contínua do mundo é aquilo que ouvimos e chamamos de silêncio.

(Clarice Lispector)

terça-feira, 14 de junho de 2016

Madrugada, sem hora.

I
Na noite insone
Imperturbável

Some a fome
Some o sono
Só não some o desejo

Uma moto atravessa meus pensamentos
Já não lembro seu nome.

II
Sobre a madrugada
Paira uma luz inexata
Fazendo oscilar as imagens
Os quadros imaginários
Situações jamais vividas
E por isso mesmo tão reais

Afinal, o que existe fora da mente?
Para sabê-lo somente sendo
Apensante, inconsciente
E só de pensar em sê-lo
Já criei outra realidade

Qual é mesmo o seu nome?

III
Um desejo quente de sexo
Lascivo

Línguas que percorrem trilhas de cheiros
Mais uma imagem enevoada de realidade
Suja e perturbadoramente deliciosa

Te persegue
Chama

Mas por qual nome?

IV
Penetra a palavra pelo desejo
E o dedo pela tua
boca buceta bunda

Fode gostoso com a tua culpa
cristã católica pudica

Goza em teu nome
Mas que nome mesmo?




05/04/2016, madrugada sem hora.

sábado, 26 de julho de 2014

Um olho à espreita de uma brecha no real em que se vislumbre o sonho. Mar aberto da minha vontade, nada é mais difícil que o caminho do desejo. Um sopro de fôlego no fim do mundo, um salto de abismo pra quem cultiva o peito aberto. Nada acaba, uma história se reinicia assim que finda uma estrada. Vida habitando inteira na boca que sorri, uma espera que termina num encontro.

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Uma espera

A ansiedade de não saber nem quando, nem como nem se...
Dói que nem faca afiada na pele tesa
Vai mutilando meu desejo aos pouquinhos
Até que no fim só sobre uma carne exposta e crua
Um peito rebentado e à míngua
Os olhos cansados e distantes
A voz rouca antes suplicante
A fé escorrendo sangue a fora...

Já desnuda e viva
Muito mais viva do que jamais fora
Real aos olhos teus e de um
Verás tuas asas e tua redenção
Teus anseios calados
O silêncio profundo de um momento bastante
Dois em cena.

sábado, 29 de março de 2014

Blue day

Sempre achei uma certa beleza na melancolia. Uma certa beleza nessa tristeza que invade a alma de repente e transforma tudo em vazio, faz toda a existência perder sentido. É uma experiência solitária, e ao mesmo tempo tão povoada de pensamentos e palavras, de música e cores frias, de uma tentativa desesperada de encontrar alguma coisa, uma resposta.

Melancolia que vai e vem. Ela sempre volta em algum momento, mesmo que há 5 minutos atrás a vida fosse mais doce. Mesmo que antes eu estivesse produzindo sentido pras coisas, essa produção encontra um limite e uma barreira difícil de ultrapassar. Todas as vezes que eu penso ter transposto essa parede, uma outra surge adiante.

Talvez a própria melancolia tenha algum sentido, seja capaz de produzir algo. Eu produzo palavras quando ela me atinge. Eu formulo perguntas essenciais, mas não sou pesquisadora e me dá preguiça correr atrás das respostas. Um dia azul nunca é um dia vivido plenamente, mas não deixa de ser sentido intensamente. Sentir afinal é um dos muitos jeitos de se estar vivo.

Um buraco que ocupa meu corpo, bem onde meu coração está, ainda que eu saiba que não é propriamente o coração que sente, mas a minha mente, que habita todo meu corpo. Ela vive, subsiste e se alimenta de todas essas coisas que meu coração e meu corpo sentem, ainda que seja o nada.

Sinto frio, ainda que haja sol esquentando meu corpo. Sinto solidão, ainda que outro de mim esteja a me chamar incessantemente. Mas talvez a solidão exista para que eu possa produzir essas palavras. Outros já a disseram antes de mim, outros ainda a sentirão quando eu não mais estiver aqui. Há sempre algo à espreita, a espera de que alguém o colha no ar e transforme o nada em poesia.

Uma brecha no tempo e no espaço se forma enquanto penso nessas palavras. Quero me jogar nela e não mais existir, quero me anular diante daquilo que me convoca para ser. A fenda me atrai, e a vida me repele. Lanço-me nela como uma outra forma de existência. Estou paralisada e ainda sim me sinto mais impulsionada do que se estivesse em movimento. O dia se faz noite enquanto eu me faço pó.

Ninguém pode me arrancar daqui, não há ninguém capaz desse resgate e quem poderia já não existe mais pra mim nem como ilusão nem como coisa concreta. Desfaço minhas crenças, minhas expectativas, minhas possibilidades de ascensão.

Sou só mais uma das almas entregue ao que não mais é composto de existências singulares, mas como massa fluida de partes em decomposição. Estou aqui, estendo a mão e ninguém a vê. Já tive a arrogância de acreditar que eu sabia algo que os outros desconheciam, hoje só aceito que na verdade eu não existo como coisa minha, mas como mero corpo sem ossos, mole e moldável a qualquer que se aventure.

Eu estou aqui no que é negro e denso e não sei sair. Nem posso. Nada seria o mesmo se assim não fosse, portanto não tento. Um dia talvez eu me arrependa de ser esse dia sem luz e essa noite sem lua. Mas por hoje me basta. Talvez eu quisesse sentir quão doce essa vida que os outros me falam pode ser, mas hoje não posso e não quero. Nunca seria a mesma, e tenho medo de ser outra coisa. Tenho medo de me perder nessa alegria exuberante e me encher de tantas cores que jamais poderia suportar. Se for pra me perder que seja no corpo quente de outro, e que eu nunca mais volte.



quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

"Te dei meus olhos pra tomares conta..."


Ela tinha olhos verdes que ele gostava de admirar, e isso era tudo. Fitava-os com dúvida e até certo temor pela urgência com que eles lhe suplicavam amor. Amava-a, mas tinha dúvidas sobre o quanto esse amor poderia ser vivido com a intensidade que ela possuía. Amava-lhe os beijos, a pele, as carícias. Amava mesmo e sobretudo os olhos, esses que tanto lhe intrigavam e que desconhecia com que profundidade enxergavam. Suspeitava que era isso mesmo que o fascinava naquelas cores verdes, mel, amarelas. Intensas, curiosas. Cores de quem ama, cores que o envolviam e hipnotizavam. Amava-a sem dúvida. Mas um amor tão inquietante que lhe causava medo. 

        Amava-a, mas não podia também esquecer a outra. E nem esquecer que na verdade ela não era a outra, mas a primeira. Amava a primeira também com cores. Amava nela sobretudo o sorriso de sol e os cabelos anelados no vento. Amava a primeira como se fosse mesmo sua outra metade. Tinha planos de construir para ela um castelo.

        A outra, esta sim a outra, a dos verdes olhos, a segunda, a que suplicava tanto, para esta, que cresceu nele tão rapidamente, não lhe saberia construir um castelo. Esta era rastro, era fluida, era passagem. 

Gostava de amá-la encarando-lhe os olhos. Ela tinha olhos verdes que ele admirava, e isso era tudo. Ela pensou nestas palavras quando um silêncio pesado preencheu o quarto, prenúncio do fim. Tudo o que aconteceu entre eles evoluiu daquela relação de cor, súplica e profundidade de olhos tão verdes.

        No silêncio ele soube que o que aqueles olhos queriam jamais estaria ao seu alcance.

       Ela chorou de saudade, e soube que o amor nascia e morria nos mesmos olhos.

       Eu te amo, ela pensou.

domingo, 25 de novembro de 2012

Não tenho medo da minha vulnerabildade, nem vergonha de ser frágil. Essa humanidade toda escorrendo dos meus olhos, é o que movimenta minha existência. Não tenho vergonha dos dias em que eu estou cinza, ou azul. Meu estado natural é a a paixão pela incerteza. A trsiteza me comove, e sinto em todo o meu corpo a comoção pela dor do outro. Tudo o que é fugaz não cristaliza, não se define, não finaliza. Passa mas não acaba, vai embora deixando marcas de sua passagem, e mudando a direção do vento. Permite assim que eu seja outra todo dia, que eu possa ver beleza na transitoriedade. Permaneço, mas já não me reconheço. Me perco de mim, mas me encontro outra.

"A incerteza, a dúvida, a fragilidade, a vulnerabilidade, a fugacidade - são esses os terrenos privilegiados da arte."

Antonio Skármeta.



domingo, 18 de novembro de 2012

Just write what you know

Escrever sobre o que se conhece.
O que eu conheço, desde que me conheço por gente, é essa busca angustiante pelo outro.
E eu posso sempre tentar escrevê-la poeticamente, e ela nunca deixa de ser sempre isso: busca, angústia.

O que eu espero de verdade dessa busca é que, ao encontrar um outro, eu encontre a mim mesma.
Que ao ser olhada, eu veja nos olhos do outro meu próprio reflexo decifrado.
Que ao ser tocada, eu possa definir os reais limites e texturas do meu corpo.
Porque essa vida que eu movimento, e esse corpo que eu habito são demasiado confusos pra mim.
São demasiado confusos os horizontes do meu pensamento, e a urgência que eles têm de entender a existência.
De sentir amor.

Sentir amor....

Cabe ao poeta estabelecer aquilo que permanecerá. Cabe ao que escreve decidir o que fica.
Eu queria saber escrever ficcionalmente, pra que a vida que eu imagino pra mim pudesse existir ao ser criada pelas minhas palavras. Diz-que que do verbo fez-se o mundo. Um ato criador é aquele que nomeia. É poiesis.

Mas só sei escrever o que conheço. E não conheço outra vida além daquela que busca, e espera incessantemente que essa busca tenha algum sentido. E toda a angústia que essa busca traz não é só impaciência pela espera em si, mas a espera também do significado que esse encontro vai trazer. Ou que se quer que ele traga. Que faça mais sentido uma vida que adquire sentido na vivência com um par, do que numa experiência solitária.

Não conheço vida que não queira se ligar a outra vida.
E pode até ser muito fútil, ou ingênuo dizer que passo a vida inteira buscando amor.

Mas o que é o amor, senão aquilo que permanece nas palavras do poeta?