... existe um sentir que é entre o sentir - nos interstícios da matéria primordial está a linha de mistério e fogo que é a respiração do mundo, e a respiração contínua do mundo é aquilo que ouvimos e chamamos de silêncio.

(Clarice Lispector)

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Conversa batida à máquina.

Descascada.
Era assim mesmo que eu me sentia quando ela disse aquela frase. Assim mesmo, rasgada, aberta. Com os meus sentimentos mais vermelhos pra fora, cobertos de visco. Todo aquele grito e aquele gozo contidos.
Era assim que eu me sentia naqueles dia em que sua ausência se fez tão presente, com a palidez dos seus sorrisos cansados, gastos, retalhados.
E ele volta. E tudo é tão igual e desnecessário que dispensamos os fingimentos, toda a palidez outra vez. Outra vez e sempre, novamente. Tão repetitivo assim, cansando as têmporas, mesmo velho ritual. Tudo tão estranhamente entediante, tão rigorosamente ensaiado. Quase tive vontade de rir de minhas próprias fraquezas infantis. Mas me contive. Tive necessidade de provar do velho rito outra vez, na ilusão de atrair dragões.
Que eles viessem e fossem doces. Que mais? Não sei, eles não viriam de qualquer forma. Eu sabia, mas não queria acreditar. Mesmo quando ela disse aquela palavra, Descascada, eu tentei disfarçar e olhar para o lado. Não sei bem mesmo se aquilo tudo era comigo, mas foi naquele momento que eu percebi, eu estava bem mesmo assim desse jeito, e só eu não via. Talvez só não reparasse.
Os dragões não perdoavam a feiúra. Quem sabe talvez esse indecifrável corpo exposto...
E assim, bem devagar e tão pequena, quase imperceptível para tais olhos que de tão aberos estão cegos, senti uma vontadinha de calçar uns sapatinhos vermelhos...


Tão dificil escrever assim, sem fingir ser outra pessoa, sem sentir essa necessidade de ser outro que não eu.


(Dialogando com Caio F., 8 ou 9 de fevereiro de 2006 - texto batido à máquina, numa noite de calor assisense, numa casa amiga deliciosa, com as emoções vivas pulsando na pele feito feridas abertas.)


sábado, 9 de maio de 2009

Stormy Blues

e nessa chuva incessante constante meu pensamento se expande até limites inimagináveis e a luz azul combina bem com esse blues que me faz lembrar você e eu e tudo que rodeava deixando tonto as noites mal dormidas e esse gosto estranho na boca que não me deixa pensar em outra coisa só nessa intensidade louca que você provoca em mim e que eu queria provocar em você também e que tudo isso fosse tão doce como aquele céu de baunilha da cidade terra do nunca e onde nunca aconteceu da gente se beijar assim tão lentamente num momento suspenso as mãos se entrelaçando os hálitos bem perto até as bocas se encostarem devagar e quente e úmido e nos lançar bem alto num salto de um abismo de onde jamais poderíamos retornar para aquela posição confortável de outrora um voô cheio de liberdade e de paixão e de vida uma coisa tão grande que não caberia em mim nem em você e teríamos então que nos tranformar pétalas de flor virando borboletas de vida tão curta que esse beijo nos mataria.


(O primeiro texto publicado nesse blog. Resolvi publicar de novo porque é um dos meus favoritos, um dos mais intensos e pessoais...)

quinta-feira, 7 de maio de 2009

"Depois de uma aula de Ontologia do Capital" ou "Uma Agonia Lenta"

Nos processos alienantes perdemos nossa essência, nossa mais profunda raiz natural, que foi roubada e dominada por conceitos que foram historicamente se consolidando e com isso produzindo essa sensação de estranhamento que sentimos todos os dias, ao cruzarmos as esquinas de um mundo que não é mais expressão da nossa subjetividade, passamos todos os dias por pessoas que produzem nossos desejos e que representam nosso mais diverso universo, mas não nos reconhecemos mais uns nos outros, estamos intrincados numa rede de conexões virtuais que nos torna anônimos para nós mesmos e para o planeta que gira ao nosso redor, indiferente às nossas patologias psicossociais produzidas por um esvaziamento do sentido de nossa atividade cotidiana e estamos portanto nos encolhendo pouco a pouco até virarmos tatus isolados em nossas tocas, ou náufragos de nossa ilha pessoal individual, da qual não podemos mais sair sem que o mundo nos ameace.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Amor, ou o absurdo cotidiano.

Pensar, criar, escrever, falar, questionar, investigar, imaginar. Categorias do mundo das palavras, regentes de nossas abstrações. Sem as palavras, o mundo seria apenas um engodo caótico. Temos necessidade de entender e dar significados às coisas, porque acreditamos que talvez assim seja possível exteriorizar e dar sentidos ao que pensamos sobre nós mesmos.

O amor, por exemplo. Sentir amor deveria ser um gesto, algo tão sutil e leve que não merecia carregar o peso dos signos que atribuímos a essa sensação tão peculiar da humanidade. E durante nossa vida aprendemos que o amor é uma virtude, é a solução de todas as misérias, é a causa única de toda necessidade que temos uns dos outros; é flor, música, poesia, beleza, perfeição. Nascemos sob esse estigma, vivemos esse estigma cotidianamente. É o fardo de nossa condição de seres subjetivados. Compramos o amor em lotes, transformados em versos de canção, em anais de poesia, em comprimidos de barbitúricos, em líquido nos vinhos tintos, em frases melosas de novelas de tv, em filmes em que encontrar e perder e reencontrar o amor depois de tantos acasos absurdos só pode mesmo ser chamado de "comédia romântica". O fardo das muitas palavras ditas sobre o amor nos carregam de sonhos e de ilusões. De possibilidades irrealizáveis X os encontros possíveis.

E assim, no nosso absurdo cotidiano das cidades amontoadas e de pessoas indiferentes, o amor está em toda parte. Ou deveria estar. O amor é coisa que cruza o nosso caminho 15 mil vezes por dia, e pode ser encontrado em cada esquina aos montes. Mas como pode a força mística e incansável do acaso unir dois corpos que dançam desgovernadamente e se procuram sem saber?

Fênix

Sou cinzas de um tempo ido
renascendo no agora.
Das chamas transmuto em paz,
caos de pó e restos
que se refazem e me reinventam.

A transformação em beleza
e força ardente,
o movimento de remoldar o devir,
as reverberações dos sentidos
e as ressonâncias de vontades novas.

As múltiplas existências me atravessam
pois a cada novo ciclo
sou uma vida nova
que se lança no mundo.

Sou poesia, leveza, encanto,
Sou vida, sou fogo, sou renovação.


sábado, 4 de abril de 2009

É, talvez isso de querer escrever com uma certa beleza etéra, algo que transcenda o próprio ato da escrita, seja o que mais me preocupa quando escrevo. Mas é também algo que de certa maneira soa impessoal, inverossímel, como se o que eu estivesse tentando dizer ficasse obscuro, apenas suspeito, nas entrelinhas... sinto que isso me impede de me jogar de verdade na coisa nua e crua do que me impulsiona.

Certa vez li um trecho de Caio Fernando Abreu que dizia: "Pra mim, e isso pode ser muito pessoal, escrever é enfiar um dedo na garganta. Depois, claro, você peneira essa gosma, amolda-a, transforma. Pode sair até uma flor. Mas o momento decisivo é o dedo na garganta."
Isso me faz pensar que eu raramente me arrisco a colocar pra fora toda a gosma mesmo, aquela coisa mais amarga e fedida que está me enjoando. Aquilo que consiste todo o ato da entrega. Tudo sempre tão cheio de floreios, sinuosidades, metáforas, como que pra desviar aquela coisa incômoda que não sabe ser dita.

E daí?? E daí se o que eu desejo te incomoda, te enoja? E daí que meu querer é bizarro, louco, imundo, irreal??

Foda-se você e as suas perguntas. Foda-se você e seu julgamento, seu pré-conceito, seu pudor. Nem tudo é poesia. As coisas também são feias, fétidas, podres. Eu, você e todo o resto.