... existe um sentir que é entre o sentir - nos interstícios da matéria primordial está a linha de mistério e fogo que é a respiração do mundo, e a respiração contínua do mundo é aquilo que ouvimos e chamamos de silêncio.

(Clarice Lispector)

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

"Os dias que eu me vejo só, são dias que eu me encontro mais..."

Saudade de escrever.. o que? não sei... qualquer coisa viva, quente, pulsante... ou qualquer verdade amarga sobre o escuro dos meus pensamentos que eu quero calar. Saudade de escrever e me embrenhar no poço do mais solitário sentimento, escrever para o vazio, imaginando se aquilo será lido, tocado, sentido, vivido, comentado, inspirado...

Saudade de escrever, porque escrever é estar sozinho e completo, com as muitas versões de mim mesma. E estar sozinho é se encontrar.

Saudade de escrever como faço agora... sem medo, sem pensar demais ou reconstruir frases infinitamente. Apenas dizer o que vier às mãos...

Só. Completamente só, para ser o que eu bem entender. Sem me preocupar com o que as pessoas querem que eu seja, e sem me preocupar com a confusão que isso provoca. Ser, apenas ser, viver, organismo pulsante ferida encrustrada na terra, querendo sair.

E amar. Todas essas que são. Todas essas que sou.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Caio Fernando Abreu

Se amanhã o que eu sonhei não for bem aquilo, eu tiro um arco-íris da cartola. E refaço. Pinto e bordo. Porque a força de dentro é maior. Maior que todo mal que existe no mundo. Maior que todos os ventos contrários. É maior porque é do bem. E nisso, sim, acredito até o fim.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Alberto Caeiro

O mistério das coisas, onde está ele?
Onde está ele que não aparece
Pelo menos a mostrar-nos que é mistério?
Que sabe o rio e que sabe a árvore
E eu, que não sou mais do que eles, que sei disso?
Sempre que olho para as coisas e penso no que os homens pensam delas,
Rio como um regato que soa fresco numa pedra.

Porque o único sentido oculto das coisas
É elas não terem sentido oculto nenhum,
É mais estranho do que todas as estranhezas
E do que os sonhos de todos os poetas
E os pensamentos de todos os filósofos,
Que as coisas sejam realmente o que parecem ser
E não haja nada que compreender.

Sim, eis o que os meus sentidos aprenderam sozinhos: —
As coisas não têm significação: têm existência.
As coisas são o único sentido oculto das coisas.

Alberto Caeiro.


---Fernando Pessoa, plural como o universo.---


sexta-feira, 30 de julho de 2010

ondas mar e pensamento
dores flores ou um lamento

na triseza dessas horas
na poeira desse dia

tudo me apavora
e tudo é poesia

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Charles Baudelaire

AS JANELAS

Aquele que olha, da rua, através de uma janela aberta, jamais vê tantas coisas como quem olha para uma janela fechada. Nada existe mais profundo, mais misterioso, mais fecundo, mais tenebroso, mais deslumbrante, que uma janela iluminada por uma lamparina. O que se pode ver ao sol nunca é tão interessante como o que acontece por trás de uma vidraça. Naquele quartinho negro ou luminoso a vida palpita, a vida sonha, a vida sofre.
Para além das ondas de telhados, diviso uma mulher já madura, enrugada, pobre, sempre debruçada sobre alguma coisa, e que nunca sai de casa. Pela sua fisionomia, pelas suas vestes, por um gesto seu, por um quase-nada, reconstituí a história dessa mulher, ou antes, a sua lenda, que às vezes conto a mim próprio, a chorar.
Se fosse um pobre velho, eu lhe haveria reconstituído a história com a mesma facilidade.
E vou-me deitar, orgulhoso de ter vivido e sofrido em outras criaturas.
Haverias de perguntar-me agora: -"Estás certo de que essa história seja a verdadeira?" Que importa o que venha a ser a realidade colocada fora de mim, se ela me ajudou a viver, a sentir que sou, e o que sou?

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Poeta



De repente, numa estação de metrô qualquer, num dia sem pressa e sem nó, num dia em que nosso olhar se abre para o que está em volta, se nos permitirmos ser afetados, podemos nos deparar com versos de um poeta de tempos muito antigos, e suas palavras ressoarem em nós como se tivessem sido escritas pelo nosso próprio espírito... nada é acaso.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Num dia sem pressa e sem nó

sinto vontade de escrever, estourar meu espírito
em bolhas de areia do deserto
um poço de sensações esquecidas,
uma manhã de cores púrpuras
nem dores nem amores
só vontade de ser e me multiplicar
em pó de estrela no espaço fora
ruído, múrmurio de outros mundos, outros povos
antigos sons, glossolalia,
vozes que falam através de versos incertos
vozes antepassadas e ainda vivas
cruzam e atravessam meu espírito
e minha carne vindos de todos os lados
e indo para todas as dimensões
e plurificando e transcendendo
lindo palavreado musicalizado
floreios infinitamente poderosos
capazes de me mover e ressoar
por séculos e séculos amém
sou toda cósmica e fluídica
nunca tive forma, nunca terei limites