
... existe um sentir que é entre o sentir - nos interstícios da matéria primordial está a linha de mistério e fogo que é a respiração do mundo, e a respiração contínua do mundo é aquilo que ouvimos e chamamos de silêncio.
(Clarice Lispector)
(Clarice Lispector)
segunda-feira, 14 de junho de 2010
quinta-feira, 3 de junho de 2010
Num dia sem pressa e sem nó
sinto vontade de escrever, estourar meu espírito
em bolhas de areia do deserto
um poço de sensações esquecidas,
uma manhã de cores púrpuras
nem dores nem amores
só vontade de ser e me multiplicar
em pó de estrela no espaço fora
ruído, múrmurio de outros mundos, outros povos
antigos sons, glossolalia,
vozes que falam através de versos incertos
vozes antepassadas e ainda vivas
cruzam e atravessam meu espírito
e minha carne vindos de todos os lados
e indo para todas as dimensões
e plurificando e transcendendo
lindo palavreado musicalizado
floreios infinitamente poderosos
capazes de me mover e ressoar
por séculos e séculos amém
sou toda cósmica e fluídica
nunca tive forma, nunca terei limites
em bolhas de areia do deserto
um poço de sensações esquecidas,
uma manhã de cores púrpuras
nem dores nem amores
só vontade de ser e me multiplicar
em pó de estrela no espaço fora
ruído, múrmurio de outros mundos, outros povos
antigos sons, glossolalia,
vozes que falam através de versos incertos
vozes antepassadas e ainda vivas
cruzam e atravessam meu espírito
e minha carne vindos de todos os lados
e indo para todas as dimensões
e plurificando e transcendendo
lindo palavreado musicalizado
floreios infinitamente poderosos
capazes de me mover e ressoar
por séculos e séculos amém
sou toda cósmica e fluídica
nunca tive forma, nunca terei limites
domingo, 21 de março de 2010
stay out of trouble
vivo a esperar tão triste por um pedaço seu fico procurando entre restos malcheirosos algum indício da tua presença etérea vida que nem sangue espesso morno e viscoso fico escarafunchando os cantos pra me convencer que foi real que não sonhei que sua voz houve grito no meu quarto passo os dias com a cabeça latejando a tua figura sorridente escárnio mentira gargalhando a minha dor humilhando a minha verdade minha ingênua entrega meu pequeno castigo por querer sem poder ter seu amor de brincadeira sua seca sedução como vinho virando vinagre um dia virando uma noite escura e densa sem luar quero que você me use mesmo assim nessa minha vaidade adolescente que não conhece limite fábula floreada de encantos e enganos porque mesmo assim essa ilusão será doce e marcante um dia sem igual nessa minha vidinha de merda.
segunda-feira, 4 de janeiro de 2010
Sou o mundo todo
Quero pensar novas formas.
Pensando eu plasmo no mundo outros territórios, habito espaços não fixos, mas mutáveis, plásticos, polifórmicos, plurais. Pensando eu impulsiono um movimento de convergência com o mundo: nos tornamos inseparáveis. Não há mais barreiras ou obstáculos, tudo nos afeta mutuamente. O que eu sou se confunde com o que o define: os contornos da cidade, os trajetos diários, as pessoas que circulam, as idéias que trafegam distâncias imensas, a chuva que modifica a paisagem, a vida cotidiana. Tudo isso me transforma, me atinge, me comunica afetos diversos. Muda toda a minha maneira de ser e estar, todos os dias. E mudo também a forma do mundo, sendo estando pensando uma coisa nova.
Sou essa integração cósmica todos os dias. Atravesso o mundo e sou atravessada por ele, e me sinto eternamente grata pelas ruas, pela chuva, pela cidade, pelo sol, pelas cores do céu, pelos sons, pelos cheiros, pelas pessoas e principalmente por essa conexão tão intensa com tudo o que existe.
Sou o que é.
Sou o mundo todo.
Pensando eu plasmo no mundo outros territórios, habito espaços não fixos, mas mutáveis, plásticos, polifórmicos, plurais. Pensando eu impulsiono um movimento de convergência com o mundo: nos tornamos inseparáveis. Não há mais barreiras ou obstáculos, tudo nos afeta mutuamente. O que eu sou se confunde com o que o define: os contornos da cidade, os trajetos diários, as pessoas que circulam, as idéias que trafegam distâncias imensas, a chuva que modifica a paisagem, a vida cotidiana. Tudo isso me transforma, me atinge, me comunica afetos diversos. Muda toda a minha maneira de ser e estar, todos os dias. E mudo também a forma do mundo, sendo estando pensando uma coisa nova.
Sou essa integração cósmica todos os dias. Atravesso o mundo e sou atravessada por ele, e me sinto eternamente grata pelas ruas, pela chuva, pela cidade, pelo sol, pelas cores do céu, pelos sons, pelos cheiros, pelas pessoas e principalmente por essa conexão tão intensa com tudo o que existe.
Sou o que é.
Sou o mundo todo.
Cristo na Cruz - Jorge Luis Borges
Cristo na cruz. Os pés tocam a terra.
As três vigas são de igual altura.
Cristo não está no meio. Ê o terceiro.
A negra barba pende sobre o peito.
O rosto não é o rosto das lâminas.
È áspero e judeu. Não o vejo
e o seguirei buscando até o dia
último de meus passos pela terra.
O homem violado sofre e cala.
A coroa de espinhos o lastima.
Não o alcança o escárnio da plebe
que viu sua agonia tantas vezes.
A sua ou a de outro. Dá no mesmo.
Cristo na cruz. Desordenadamente
pensa no reino que talvez o espera,
pensa em uma mulher que não foi sua.
Não lhe é dado ver a teologia,
a indecifrável Trindade, os gnósticos,
as catedrais, a navalha de Occam,
a púrpura, a mitra, a liturgia,
a conversão de Guthrum pela espada,
a Inquisição, o "sangue dos mártires,
as atrozes Cruzadas, Joana D'Arc,
o Vaticano que bendiz exércitos.
Sabe que não é um deus e que é um homem
que morre com o dia. Não lhe importa.
Lhe importa o duro ferro dos cravos.
Não é um romano. Não é um grego. Geme.
Nos deixou esplêndidas metáforas
e uma doutrina do perdão que pode
anular o passado. (Essa sentença
foi escrita por um irlandês em um cárcere.)
A alma busca o fim, com urgência.
Escureceu um pouco. Já morreu.
Anda uma mosca pela carne quieta.
Que pode me servir que aquele homem
tenha sofrido, se eu sofro agora?
Kyoto, 1984
in: "Os Conjurados"
As três vigas são de igual altura.
Cristo não está no meio. Ê o terceiro.
A negra barba pende sobre o peito.
O rosto não é o rosto das lâminas.
È áspero e judeu. Não o vejo
e o seguirei buscando até o dia
último de meus passos pela terra.
O homem violado sofre e cala.
A coroa de espinhos o lastima.
Não o alcança o escárnio da plebe
que viu sua agonia tantas vezes.
A sua ou a de outro. Dá no mesmo.
Cristo na cruz. Desordenadamente
pensa no reino que talvez o espera,
pensa em uma mulher que não foi sua.
Não lhe é dado ver a teologia,
a indecifrável Trindade, os gnósticos,
as catedrais, a navalha de Occam,
a púrpura, a mitra, a liturgia,
a conversão de Guthrum pela espada,
a Inquisição, o "sangue dos mártires,
as atrozes Cruzadas, Joana D'Arc,
o Vaticano que bendiz exércitos.
Sabe que não é um deus e que é um homem
que morre com o dia. Não lhe importa.
Lhe importa o duro ferro dos cravos.
Não é um romano. Não é um grego. Geme.
Nos deixou esplêndidas metáforas
e uma doutrina do perdão que pode
anular o passado. (Essa sentença
foi escrita por um irlandês em um cárcere.)
A alma busca o fim, com urgência.
Escureceu um pouco. Já morreu.
Anda uma mosca pela carne quieta.
Que pode me servir que aquele homem
tenha sofrido, se eu sofro agora?
Kyoto, 1984
in: "Os Conjurados"
segunda-feira, 7 de dezembro de 2009
Escrevendo sem escrever
Crise de inspiração, ou coração vazio?
Essa falta de escrever tá começando a me intrigar.
Nada a dizer, ou tanto a esconder?
O corpo em silêncio, um beijo esquecido,
um dia a menos para amar.
Essa falta de escrever tá começando a me intrigar.
Nada a dizer, ou tanto a esconder?
O corpo em silêncio, um beijo esquecido,
um dia a menos para amar.
sexta-feira, 13 de novembro de 2009
"Liberdade" - Sophia Andresen
Aqui nesta praia onde
Não há nenhum vestígio de impureza,
Aqui onde há somente
Ondas tombando ininterruptamente,
Puro espaço e lúcida unidade,
Aqui o tempo apaixonadamente
Encontra a própria liberdade.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Não há nenhum vestígio de impureza,
Aqui onde há somente
Ondas tombando ininterruptamente,
Puro espaço e lúcida unidade,
Aqui o tempo apaixonadamente
Encontra a própria liberdade.
Sophia de Mello Breyner Andresen
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